Minha arte começa onde termina a grande pergunta do significado da vida: na perseguição da face de Deus.
Não pinto porque acredito ter encontrado todas as respostas, mas porque continuo procurando. Minha arte nasce dessa busca: de tentar descobrir onde Ele está, o que Ele pensa, para onde estão os olhos dEle e, consequentemente, onde nossos olhos deveriam estar voltados. É perseguir de volta um Amor que me perseguiu primeiro.
E, nessa busca, descubro que olhar para Cristo também é aprender a olhar para mim. Ao contemplá-Lo, encontro minha própria face refletida em Seus olhos e, nesse reflexo, enxergo aquilo que sou: minhas falhas, minhas dores, minhas belezas e minha identidade. A contemplação de Cristo não me permite permanecer indiferente a mim mesma; quanto mais O procuro, mais sou convidada a reconhecer aquilo que existe em mim e aquilo que ainda precisa ser transformado.
É nesse lugar de intimidade que minhas telas começam a existir. Há momentos em que pintar parece ser apenas eu, Deus e a tela, submersos em uma atmosfera de graça e misericórdia. A cada pincelada existe uma espécie de liberdade, como se aquilo que permaneceu dentro de mim por dias, semanas ou meses finalmente encontrasse uma forma para ser entregue. O que nasce da introspecção, porém, não foi feito para permanecer nela. Aquilo que é recebido na intimidade precisa ser derramado.
Por isso, minhas telas carregam mais do que aquilo que consigo explicar. Carregam orações, lágrimas, dores profundas, temor, zelo e processos que antecedem a própria pintura. Algumas nasceram de algo que compreendi; outras, de algo que ainda estou tentando compreender. Não acredito que uma obra precise conter todas as respostas para possuir significado. Assim como cada pessoa contempla uma mesma realidade a partir de sua própria história, cada olhar pode encontrar uma coisa diferente diante de uma tela. A obra deixa minhas mãos, mas continua acontecendo no encontro com quem a contempla.
Acredito que isso seja possível porque a arte pertence profundamente intrínseca à experiência humana. Fomos criados por um Deus que cria, e talvez por isso exista em nós essa necessidade de transformar aquilo que vemos, sentimos e vivemos em alguma forma de expressão. A arte pode nos chocar, mover, acolher e transformar. Pode revelar aquilo que preferíamos esconder e também nos lembrar das belezas que deixamos de enxergar. Pode nos obrigar a olhar novamente.
É esse olhar que desejo provocar. Não quero oferecer apenas imagens bonitas, mas abrir espaço para que exista algo além da superfície: além das pinceladas, além daquilo que à primeira vista revela, além de mim mesma. Quero que minhas obras sejam lugares de contemplação, onde alguém possa ser intrigado a olhar para dentro e, talvez, encontrar algo que ainda não havia percebido.
Por isso também existe aquilo que não quero me tornar. Não quero fazer arte por fazer. Não quero que a criação se transforme em uma repetição vazia, nem que a fé se reduza à religiosidade sem essência e sem verdade. Não quero esquecer que vidas não são números, métricas ou contas bancárias. Não quero colocar meu nome no centro daquilo que não nasceu de mim.
A obra exige minhas mãos, meu esforço, minhas renúncias e minha entrega, mas não tem a mim como destino. Creio que fomos feitos para frutificar na vida uns dos outros, e que aquilo que recebemos não deve terminar em nós. Uma árvore não produz frutos para si mesma. Da mesma maneira, desejo que aquilo que nasce através da minha arte possa alcançar alguém além de mim.
A arte é leveza, mas não a leveza da ausência de peso. Ela é aprender onde descansar aquilo que se carrega. É caminhar com a cruz diária, assumir a responsabilidade de amar, renunciar, permanecer e continuar mesmo sem saber exatamente para onde se está indo, encontrando descanso naquele que já conhece o caminho e que tomou sobre si aquilo que eu não poderia carregar sozinha. É descobrir que, mesmo atravessada pela dor, existe uma glória maior; que mesmo diante do vazio, existe um preenchimento; que mesmo sem compreender todas as coisas, ainda é possível descansar.
É essa leveza que desejo que permaneça nas minhas obras: não uma leveza superficial, que ignora a dor, mas a leveza de quem encontrou onde repousar o próprio peso.
No fim, não sei medir o sucesso daquilo que faço pela quantidade de pessoas que verão minhas telas, pelos lugares onde elas estarão ou pelo quanto meu nome será lembrado. Minha definição de sucesso é muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito maior: que, através daquilo que faço, alguém possa conhecer aquele que procuro.
Continuarei pintando, então, não como quem chegou ao fim da busca, mas como quem continua perseguindo uma face que já a encontrou primeiro. Continuarei procurando nos campos, nas flores, no mar, nas pessoas, nas dores, nas complexidades e nas pequenas belezas aquilo que meus olhos ainda não aprenderam a ver. Continuarei transformando o que recebo em cor, matéria, gesto e memória.
Porque talvez criar seja isso: perseguir a face de Deus até que, no reflexo de Seus olhos, eu possa enxergar quem somos e quem deveríamos ser, para então responder à grande questão: para que fomos criados?
