A(mar)te

Sobre Júlia

Quem é a Júlia antes de ser artista? 

Foi uma criança e é uma pessoa muito curiosa e energética. 

Sou tímida, mas, depois que me abro, ninguém me segura. Nunca gostei muito da sensação de estar aparecendo, embora, muitas vezes, aparecer seja uma consequência daquilo que faço. 

Também reconheço muito a minha incapacidade e a minha dependência do Senhor. Já quis desistir dos meus sonhos e deixar de ser quem sou e fazer o que fui chamada para fazer muitas vezes, porque me sentia insuficiente. Mas sempre sou lembrada de que a vida não é sobre aquilo que eu faço ou deixo de fazer, nem sobre a minha capacidade ou falta dela. A vida é sobre uma mensagem muito maior do que eu, que não diz respeito à minha suficiência. 

Passei anos sem conseguir sonhar. Hoje, sonho com coisas enormes e quero aproveitar tudo de bom que a vida pode ter. Porque, para mim, essa Vida é Cristo, que é tudo em todos e expõe Seu amor em tudo. 

 

Quando você percebeu que a arte era mais do que algo que gostava de fazer? 

A arte sempre foi algo que eu amei fazer. Mas comecei a entender o peso dela, em mim e através de mim, quando encontrei alguns artistas e pessoas do ministério de Artes na minha igreja, especialmente em 2021. Pessoas que não tratavam a arte com infantilidade, mas como exposição da Verdade. 

Até então, eu podia enxergar a arte como algo que eu gostava de fazer, quase como um “é só desenhar”. Mas comecei a perceber que artistas podiam tratar a arte como algo muito maior do que isso. 

E então comecei a me perguntar se talvez a arte não fosse apenas um hobby da infância, mas também uma parte de quem eu sou. 

 

O que mudou quando você começou a enxergar a arte como parte de quem você é? 

Entendi que aquilo que eu aprendi e que nasceu da introspecção pode ser exposto, e que outras pessoas podem sentir algo através disso. 

Percebi que posso expor aquilo que carregava escondido em mim. 

O que nasce dentro de mim não precisa permanecer escondido dentro de mim. 

 

O que você procura quando olha para o mundo? Se alguém passasse um dia inteiro com você, o que perceberia que você observa o tempo todo? 

Observo tudo KKKKK. 

Natureza, pássaros, flores, pessoas, frases engraçadas, detalhes bobos, arquitetura, pôr do sol, sorrisos, dores… 

Eu gosto de olhar para as coisas e tentar perceber o que existe por trás delas. 

Prestar atenção aos detalhes, para mim, é procurar Deus neles. 

 

De onde vem essa sua curiosidade por pessoas, ideias e detalhes? 

Eu sempre gostei de perguntar “por quê?” e querer entender o significado das coisas. Gosto de conversas profundas, principalmente quando existem discordâncias e ideias diferentes, mas ainda existe respeito. 

Gosto de conhecer diferentes visões, pessoas, culturas e formas de enxergar o mundo. Também gosto de ouvir alguém falando sobre alguma coisa que ama, mesmo quando eu não entendo nada sobre aquilo. É bonito conhecer o que faz os outros gostarem de alguma coisa. 

Acho que essa curiosidade vem justamente desse desejo de entender. De não passar pelas coisas superficialmente. 

Às vezes, isso pode até se tornar um impedimento, porque a vontade de entender tudo pode virar uma tentativa de controlar tudo. Mas continuo aprendendo a olhar, perguntar e simplesmente estar presente. 

 

O que alimenta seu olhar artístico? 

As perguntas que Deus me fez e faz. 

As pessoas, as experiências, os artistas que encontrei e os lugares pelos quais passei também aprofundaram meu amor pela arte e afiaram meu olhar. Mas, acima de tudo, vejo Deus como Aquele que permitiu que tudo isso cruzasse o meu caminho. 

Tenho uma dívida eterna de gratidão e devoção a Ele por cada pessoa, experiência e detalhe que me ensinou a enxergar um pouco mais. 

 

Como você descreveria a artista que é hoje? 

A Júlia artista é uma grande leiga sobre a vida, que só busca expressar aquilo que lhe traz qualquer senso de urgência ou um amor que lhe foi entregue. 

Eu gosto muito daquela ideia de que, “em sua pequenez, foi expressa a grandeza”. 

Não me sinto alguém que já sabe tudo, nem que domina todas as técnicas. Gostaria de um dia ser capaz de fazer muito mais, mas, por enquanto, sinto que me foi dado apenas um coração disponível — e eu tento carregá-lo e seguir com ele. 

 

O que você ainda está aprendendo? 

Em questões técnicas, quero aprender muito. Quero me aprofundar no impressionismo moderno, aprender a pintar pessoas, entender melhor movimento, sensação e tudo aquilo que existe para além da realidade literal e da perfeição. 

Mas acho que também estou aprendendo a criar sem precisar entender tudo. 

A aprender a não transformar aquilo que amo em algo que precisa ser perfeitamente explicado ou controlado. 

E quero continuar aprendendo com pessoas que estejam dispostas a caminhar comigo nesse processo. 

 

Quem é a Júlia quando não está criando? 

Eu sou apaixonada por conversas profundas, por cozinhar (principalmente massas), por comer brigadeiro no frio enquanto assisto a filmes de fim do mundo. 

Canto ou fico cantarolando praticamente o dia inteiro. Amo dançar, inclusive enquanto cozinho, mesmo sendo péssima nisso. 

Gosto de aprender sobre pessoas, culturas, músicas e diferentes formas de enxergar a vida. Amo tocar e cantar com pessoas que admiro. Amo ouvir alguém falar sobre alguma coisa que ama, mesmo quando eu não entendo muito. 

Também amo levar as pessoas para lugares culturais de que gosto e observar a reação delas. 

Depois de ser liberta de anos vivendo só pela ótica ansiosa, solitária, de crises de pânico e de não ver amor pela vida, me tornei (ou voltei a ser) uma pessoa muito curiosa, energética e apaixonada pela vida. 

E gosto de pensar que posso ser, um dia, alguém que gera conforto. 

Sabe aquele tipo de pessoa que chega ao ambiente e você descansa por ela estar lá? 

Exatamente assim. 

 

O que você tem medo de perder conforme cresce? 

Tenho medo de abandonar a arte. 

Tenho medo de que, conforme a vida fique mais cheia de responsabilidades, eu comece a enxergar projetos apenas como projetos, clientes apenas como clientes e esqueça que existem vidas ali. 

Tenho medo de esquecer que pessoas são VIDAS completas e complexas. 

E tenho medo de deixar de lado aquilo que chamo de minhas “pinceladas-orações”. 

 

Como você espera estar criando daqui a dez anos? 

Espero ter permanecido. 

Quero continuar me movendo em compaixão, mergulhando cada vez mais na graça e me aproximando da Vida. 

Quero que Ele continue sendo o primeiro, acima de tudo. 

E o resto será acrescentado. 

 

O que você gostaria que alguém descobrisse através da sua arte? 

Que existe algo muito maior do que uma vida que vive apenas para si mesma, acumulando tesouros para si. 

Existe Quem preenche o vazio. 

E Ele está mais perto do que você poderia imaginar. 

 

Complete sem pensar demais: 

“Eu sou Júlia, e talvez minha história com a arte tenha começado muito antes de eu perceber, porque…” 

A graça me perseguia e meu real propósito estava contido nos detalhes desde cotoquinha. 

Júlia Ramalho